A princípio estava difícil de acender mas o vento lá deu uma ajuda. O fogo é algo curioso: parece que se vai extinguir, mas basta colocarmos um combustível para reaparecer das cinzas, literalmente. É o que dá depender de algo e destruí-lo para existir.
O vento parecia que brincava com o fogo como uma criança com plasticina. Imagino que esta fogueira para ele seja uma bola mínima, que lhe não dá prazer nenhum de moldar, assim como uma criança ignora um pedacinho mínimo de plasticina. Logo ele não faz o fogo ondular porque se diverte, mas unicamente porque simplesmente tem que passar
O céu estava nublado, prometia chuva, não podia ver as estrelas. Mas imaginava-as lá atrás e podê-las imaginar ainda é melhor, a realidade limita as coisas. Começou a cair uma chuva miudinha. Parecia que fazia cócegas na pele. Talvez nesta altura o fogo tivesse sentido medo, uma vez que aparecia o seu eterno rival, o seu eterno vencedor. No entanto, talvez o seu medo não viesse daí, dado que de qualquer forma, a sua existência é bastante efémera.
O fogo tem algo que nos enfeitiça, podemos ficar a olhar para ele tempos infindos... Provavelmente porque seja um reflexo do fogo que há em nós: tanto é luz no meio da escuridão, como nos consome.
sábado, 13 de novembro de 2010
domingo, 17 de outubro de 2010
Poema IV
Sofro, Lídia, porque uso demais a razão.
Pensar incomoda mais que urticária,
É mais viciante que droga,
Faz com que as dúvidas nos consumam.
Se para quem sente o pior da vida é a morte
(no sentido literal),
Para quem pensa o pior da vida é nascer,
Soltar um choro silencioso.
Não porque o ar lhe doa nos pulmões,
Mas porque a consciência lhe dói na alma.
Não porque se sente desprotegido fora da mãe,
Mas porque percebe a ilusão em que vive.
Nasceu, porque perdeu a ingenuidade.
É como quando, ao longe,
Parece que vemos uma linda flor amarela,
E queremos ir mais perto para contemplá-la.
Mas quando nos aproximamos,
Reparamos que afinal se trata de um ramo pálido.
A partir daí, mesmo que queiramos ver de longe,
A imagem da flor esvaner-se-á sempre.
Assim como quando se perde a ingenuidade,
Por mais que a tentemos recuperar,
Dificilmente voltará.
Quem me dera não ter chegado perto da flor.
Quando vejo os teus olhos, Lídia,
E sinto a tua cabeça encostada no meu ombro,
Sinto o meu coração estremecer,
Por breves momentos vou recuperando a inocência perdida,
Somos meras crianças,
Brincando com as estrelas.
Embala-me, Lídia, com o teu doce sorriso,
Deixa-me só ver flores, onde a palidez reina.
Mas já não estás comigo,
Foi-se o meu coração,
E os sonhos cor-de-rosa.
Que no fundo nada eram.
Para ser feliz, sê criança:
Olha o mundo com os olhos de uma.
Só assim deixarás de pensar,
E amarás, porque nada mais existe.
Pensar incomoda mais que urticária,
É mais viciante que droga,
Faz com que as dúvidas nos consumam.
Se para quem sente o pior da vida é a morte
(no sentido literal),
Para quem pensa o pior da vida é nascer,
Soltar um choro silencioso.
Não porque o ar lhe doa nos pulmões,
Mas porque a consciência lhe dói na alma.
Não porque se sente desprotegido fora da mãe,
Mas porque percebe a ilusão em que vive.
Nasceu, porque perdeu a ingenuidade.
É como quando, ao longe,
Parece que vemos uma linda flor amarela,
E queremos ir mais perto para contemplá-la.
Mas quando nos aproximamos,
Reparamos que afinal se trata de um ramo pálido.
A partir daí, mesmo que queiramos ver de longe,
A imagem da flor esvaner-se-á sempre.
Assim como quando se perde a ingenuidade,
Por mais que a tentemos recuperar,
Dificilmente voltará.
Quem me dera não ter chegado perto da flor.
Quando vejo os teus olhos, Lídia,
E sinto a tua cabeça encostada no meu ombro,
Sinto o meu coração estremecer,
Por breves momentos vou recuperando a inocência perdida,
Somos meras crianças,
Brincando com as estrelas.
Embala-me, Lídia, com o teu doce sorriso,
Deixa-me só ver flores, onde a palidez reina.
Mas já não estás comigo,
Foi-se o meu coração,
E os sonhos cor-de-rosa.
Que no fundo nada eram.
Para ser feliz, sê criança:
Olha o mundo com os olhos de uma.
Só assim deixarás de pensar,
E amarás, porque nada mais existe.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Paz
Sentia-me tranquilo. Não tinha expectativas, não tinha inquietações. Estava em harmonia com a Natureza. Para além de sentir a brisa, queria ser o vento que passa, e nada mais faz. Queria ser a água que corre, e simplesmente deslizar. Queria ser os pássaros que voavam, e deixar de tocar as estrelas apenas quando sonhava.
Sentia-me em paz. Quase sentia a Paz. Gostava de ser a paz.
Acordei. Mas acho que não estava a dormir, nem me parece que tenha sonhado. Volto a sentir o peso do mundo. Foi uma miragem, ou uma ilusão. Se a única diferença entre a morte e a ausência é a esperança, entre a paixão e a maldição é a magia, a única diferença entre o sonho e a ilusão é a fé.
Sinto-me sereno. O que parecia doce e sorridente agora parece que perde a magia, a fé, a esperança: é isto que faz parte da nossa alma. Sei que nunca acabarão, assim como a Paz nunca chegará.
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Boiando, com rumo incerto
Enquanto olhava hoje o rio, chamou-me à atenção ver uma garrafa de vidro, boiando à superfície, por entre as ligeiras ondulações da água, avançando lentamente pelo curso do rio, com uma rota indefinida, incerta, ou talvez determinística mas indeterminável devido à complexidade do mundo que a envolve. Alheia a isto tudo lá vai, esta garrafa, certamente com a sua história, que a levou até ali. Lembro-me logo de uma história romântica, como a da garrafa que esteve na origem do amor entre Theresa e Garrett, em "As Palavras Que Nunca Te Direi". Talvez ela transporte também um poema, uma mensagem, para um amor perdido, uma paixão efémera, uma ilusão que persiste. Pode ser que simplesmente tenha saltado de um qualquer caixote do lixo, ou o mais provável, que uma qualquer pessoa tenha consumido o álcool do seu interior, e como a preguiça é muita, se tenha desenvencilhado dela da maneira mais fácil e a tenha atirado ao rio.
Às vezes sinto-me um pouco como na situação da garrafa: simplesmente a flutuar, tranquilamente, algures perdido sem ter a certeza de que o rumo é certo ou de que o controlo, algures perdido, ao sabor das ondas e do vento, à beira de ir ao fundo, algures perdido entre o que era, o que sou, e o que não tenho a certeza que quero ser. Mas o mais provável é que seja sempre a mesma pessoa, sim, sou, só que o que me rodeia é que muda, e mudou bastante há um ano. Talvez seja como aquela montanha na Oceânia, Ayers Rock, que muda de cor ao longo do dia, mas o que a constitui é sempre o mesmo, o que muda é o ângulo de incidência dos raios solares.
Alheia a isto tudo, a todas estas divagações que quase nada são, lá vai a garrafa, sem bússola, sem rumo. Talvez vá para a reciclagem, talvez acabe no mar, talvez acabe em mínimas lascas de vidro. Ou talvez alguém acabe por ler a mensagem no seu interior, e uma Theresa e um Garrett se encontrem. Oh, que opção ilógica, que probabilidade infimíssima. Mas quem sabe?
Subscrever:
Mensagens (Atom)