domingo, 13 de maio de 2012

Abriu as mãos, e nelas reluziam as ricas espirais de pérolas.
-Flynn, não me peças que as aceite.
-Peço-o. Dou-te este presente, Kayleen. São réplicas, e não pertencem a mais ninguém senão a mim. Até te pertencerem a ti.
Estrangulou-se-lhe a voz quando ele as colocou à volta do pescoço.
-Fizeste-as para mim?
-Talvez tenha ficado algo preguiçoso com os anos. Levei um pouco mais de tempo a conjurá-las do que deveria, mas fez-me recordar o prazer de criar.
-São mais bonitas que as outras. E muito mais preciosas.
-E eis uma lágrima - murmurou ele, e apanhando-a com a ponta do dedo enquanto se lhe deslizava pela face - Se cai de felicidade, vai brilhar. Se for de pesar, vai transformar-se em cinzas. Observa.
A gota tremeluziu no dedo dele, cintilou, e depois solidificou-se num diamante em forma de lágrima.
-E é este o teu presente para mim - retirou o pingente de debaixo da camisola, e passou a mão por ele. A gota de diamante brilhava agora debaixo da pedra-de-lua. Vou usá-lo junto ao coração. Sempre.

 Nora Roberts, "Em Sonhos".

Sempre...

sábado, 5 de maio de 2012

Amarelo. Tudo amarelo. Parece dia.

Procuro o melhor ângulo para observar o círculo amarelo reluzente pendurado na tela escura, e com uma pequenas pintas brilhantes à volta. Uma pincelada branca está traçada e parece que quem pegou no pincel o levantou de propósito para poder vislumbrar a Lua, no seu esplendor.

Sou só eu, esta atmosfera magnífica, e uma música que me diz: É verdade, olha como elas brilham para ti...

sexta-feira, 27 de abril de 2012

"Conversávamos sobre saudade. E de repente me apercebi de que não tenho saudade de nada. Isso independente de qualquer recordação de felicidade ou de tristeza, de tempo mais feliz, menos feliz. Saudade de nada. Nem da infância querida, nem sequer das borboletas azuis, Casimiro. Nem mesmo de quem morreu. De quem morreu sinto é falta, o prejuízo da perda, a ausência. A vontade da presença, mas não no passado, e sim presença atual.
Saudade será isso? Queria tê-los aqui, agora. Voltar atrás? Acho que não, nem com eles.
A vida é uma coisa que tem de passar, uma obrigação de que é preciso dar conta. Uma dívida que se vai pagando todos os meses, todos os dias. Parece loucura lamentar o tempo em que se devia muito mais.
Queria ter palavras boas, eficientes, para explicar como é isso de não ter saudades; fazer sentir que estou exprimindo um sentimento real, a humilde, a nua verdade. Você insinua a suspeita de que talvez seja isso uma atitude.
Meu Deus, acha-me capaz de atitudes, pensa que eu me rebaixaria a isso? Pois então eu lhe digo que essa capacidade de morrer de saudades, creio que ela só afeta a quem não cresceu direito; feito uma cobra que se sentisse melhor na pele antiga, não se acomodasse nunca à pele nova. Mas nós, como é que vamos ter saudades de um trapo velho que não nos cabe mais?
Fala que saudade é sensação de perda. Pois é. E eu lhe digo que, pessoalmente, não sinto que perdi nada. Gastei, gastei tempo, emoções, corpo e alma. E gastar não é perder, é usar até consumir.
E não pense que estou a lhe sugerir tragédias. Tirando a média, não tive quinhão por demais pior que o dos outros. Houve muito pedaço duro, mas a vida é assim mesmo, a uns traz os seus golpes mais cedo e a outros mais tarde; no fim, iguala a todos.
Infância sem lágrimas, amada, protegida. Mocidade - mas a mocidade já é de si uma etapa infeliz. Coração inquieto que não sabe o que quer, ou quer demais.
Qual será, nesta vida, o jovem satisfeito? Um jovem pode nos fazer confidências de exaltação, de embriaguez; de felicidade, nunca. Mocidade é a quadra dramática por excelência, o período dos conflitos, dos ajustamentos penosos, dos desajustamentos trágicos. A idade dos suicídios, dos desenganos e, por isso mesmo, dos grandes heroísmos. É o tempo em que a gente quer ser dono do mundo - e ao mesmo tempo sente que sobra nesse mesmo mundo. A idade em que se descobre a solidão irremediável de todos os viventes. Em que se pesam os valores do mundo por uma balança emocional, com medidas baralhadas; um quilo às vezes vale menos do que um grama; e por essas medida, pode-se descobrir a diferença metafísica que há entre uma arroba de chumbo e uma arroba de plumas.
Não sei mesmo como, entre as inúmeras mentiras do mundo, se consegue manter essa mentira maior de todas: a suposta felicidade dos moços. Por mim, sempre tive pena deles, da sua angústia e do seu desamparo. Enquanto esta idade a que chegamos, você e eu, é o tempo da estabilidade e das batalhas ganhas. Já pouco se exige, já pouco se espera. E mesmo quando se exige muito, só se espera o possível. Se as surpresas são poucas, poucos também os desenganos.
A gente vai se aferrando a hábitos, a pessoas e objetos. Ai, um dos piores tormentos dos jovens é justamente o desapego das coisas, essa instabilidade do querer, a sede do que é novo, o tédio do possuído.
E depois há o capítulo da morte, sempre presente em todas as idades. Com a diferença de que a morte é a amante dos moços e a companheira dos velhos.
Para os jovens ela é abismo e paixão. Para nós, foi se tornando pouco a pouco uma velha amiga, a se anunciar devagarinho: o cabelo branco, a preguiça, a ruga no rosto, a vista fraca, os achaques. Velha amiga que vem de viagem e de cada porto nos manda um postal, para indicar que já embarcou."


Rachel de Queiroz
(Crónica publicada no jornal "O Estado de São Paulo"  -  13/01/2001)

sexta-feira, 16 de março de 2012

É bom acreditar em nada. Sentir-se despejado de uma série de obrigações e imperativos que impomos a nós mesmos. Olhar para os outros e ver a forma como criam as suas ilusões, como colocam as suas expectativas de uma possível alegria em objectos e pessoas que não merecem, nem essa responsabilidade, nem essa atenção. E depois arrepender-se de sequer ter olhado para essas pessoas que dormem, que andam de um lado para o outro sem saber bem porquê e para quê, pois ao olhá-las estamos em parte a agir como elas, a procurar a solução em algo exterior a nós mesmos.

Quando nos libertarmos das prisões que nos são impostas e, mais que tudo, das que criamos para nós de forma voluntária, quando olharmos o pôr-do-sol e dermos a mão aquela solidão que lá ao fundo nos sorri, quando nada esperarmos que em nós já não exista, pode ser que nesse momento se alcance essa insustentável leveza do ser. Mas no limite sentirei sempre o peso de não sentir peso.