domingo, 6 de junho de 2010

Ricardo Reis Revisited II

Duas semanas passaram, Lídia,
Mas parece uma eternidade desde que partiste.
O tempo passa mais devagar
Mas o teu perfume continua com a mesma intensidade.

O aroma dos teu cabelos continua
Na almofada, no baloiço, no banco de jardim.
E quando alguma folha cai das árvores
E passa ao de leve no meu rosto

Parece o toque da tua mão.
Acho que o rio e as flores
Têm saudades tuas,
E tentam-me a passar a sua tristeza.

Há dois tipos de tristeza:
Uma, é a passageira,
Mais tarde ou mais cedo
Será tomada pela alegria

É como se fosse uma manta escura
Que tapa a luz dentro de nós.
A outra tristeza é mais implacável,
Não tapa a luz, apaga-a mesmo.

Talvez seja aquilo a que a Medicina,
Com a mania de explicar
Sentimentos com químicos e genes,
Chame de depressão.

A única tristeza que há em mim, Lídia,
É a primeira, porque o meu amor por
Ti impede que a minha Luz se apague.
Ah, acho que devia ter-te dado um beijo de despedida.

Sentir-te-ei sempre,
Mas quem sabe se te voltarei a ver?
Para quê tantos complexos
Se vamos morrer e não sabemos o que está do outro lado?

O vento acaba de me trazer uma carícia tua
E pergunta-me se quer que leve alguma coisa.
Leva um beijo meu, vento,
Para que possas sentir aquilo que devia ter feito.

Ás vezes somos fracos, sim,
Porque não nos chega uma promessa,
Porque desconfiamos,
Porque precisamos de provas.

Eu não quero mais nada de ti Lídia
Se não a tua felicidade,
E ouvir as tuas gargalhadas,
Nem que isso signifique outro homem.

Mesmo que isso aconteça
Serás sempre minha
Porque mantens a minha Luz acesa
E isso não impediu que apagasses a Tua.

Vai, Vento, leva-lhe um beijo meu,
Toca-lhe na face com suavidade,
Está na hora de ir ver o pôr-do-sol
E contemplar outra vez o teu Olhar.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Dificuldades

Há pessoas que passam a vida a queixar-se. A queixar-se da vida, da sorte, do azar, das circunstâncias, dos outros, delas próprias, de Deus... Como se fossem vítimas de algo que não depende delas, como se não fossem livres nem pudessem fazer as suas escolhas, como se o facto de nem tudo ser fácil seja logo uma razão para não fazer nada, desistir, e fazer a única coisa que sabem fazer bem: queixar-se. Mete-me nojo quem pensa que o mundo gira à sua volta, que por uma mínima dificuldade começam logo a dizer que a sua vida é péssima e desanimam logo, cujo maior problema às vezes é escolher a maquilhagem, uma peça estúpida qualquer de roupa, ou uma rapariga qualquer para engatar. Mas o que sinto ainda é pena destas pessoas, porque têm uma compreensão tão limitada do que as rodeia, porque os seus problemas são tão inúteis e mesquinhos, e ignoram uma série de valores. Se às vezes olhássemos melhor à nossa volta e víssemos tanta gente com mais problemas que nós e que continua em frente, sem se lamentar. Nunca ninguém disse que a vida era justa, nunca ninguém disse que tudo é fácil. mas assim as coisas que vamos conquistando têm mais sabor, e há todo um processo de aprendizagem que é interiorizado. Sim, no fundo tenho é pena porque ao não ter dificuldades e ao desistir estão a seguir o caminho mais fácil, mas menos digno e enriquecedor. Se vale a pena não ir pelo facilitismo? Acho que nem preciso de responder.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Espelho

Sê tu mesmo,
Olha para o mundo com os teus olhos
E não digas que vês outra coisa
Só por os outros dizerem.
De que serve andares a fingir que és outra pessoa?

Deixa as coisas saírem naturalmente,
Diz aquilo que tens a dizer,
Não deixes que o medo te deixe imóvel,
Pois o medo se o souberes enfrentar é inofensivo.
Um gatinho vestido de leão.

Se a vida for um teatro,
Não faças o papel de outra pessoa que não tu.
Se amas alguém,
Não a tentes conquistar oferecendo-lhe
Uma falsa imagem de ti.

Assim quando forem passear,
Se acabarem afastados
Sabes que não é ela,
Se acabarem de mãos dadas
Pode ser que seja ela.
E tudo sem mentiras e fingimentos.

Corres os risco de ter poucas pessoas
Que gostem de ti
Porque as outras, as falsas,
Só gostam de ti se fores
Algo que elas querem que sejas.

Não te preocupes com isso.
De que servem muitos se não
Compreendem o teu interior?
Vale mais poucos mas bons,
Com relações profundas e verdadeiras.

Sim, temos essa necessidade
De ter pessoas que testemunhem
A nossa vida.
Que saibam os nossos sentimentos,
As nossas ideias e dificuldades.

Mas isso não é mau,
Porque o teu coração precisa disso
E desde que cumpras uma condição:
Ser tu mesmo.

Não penses muito
Pensar demais ofusca
Saberes o que realmente queres
E o que realmente és.

Caso contrário
Perderás as oportunidades
Porque quando devias agir
Estiveste a pe(n)sar demais qual era o melhor.

Assim quando te estender a mão
Agarra-a se o que tu és
Está em harmonia com o que sou.

Se for desta maneira,
Reduzirás muitos problemas,
Pois alguns vêm de não espelhares a tua Alma.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Dia da criança

Hoje é dia da criança. Por todo o mundo montes de meninos devem ter chegado ao fim deste dia com enorme entusiasmo e alegria. Ir ao cinema, não ter aulas, fazer actividades ao ar livre, artes plásticas, torna este dia especial para eles. Mas no entanto o que eu queria falar é de todas as crianças que são, em termos físicos, adultas. Todas as pessoas que, apesar de todas as dificuldades, de todas as críticas, de serem forçadas pelo mundo a crescer e a ter os “alegados” comportamentos de adulto, de associarem o conceito de “criança” à ingenuidade, palermice, continuam com ela bem viva dentro de si.
O que é ser criança afinal?
Ser criança é oferecer uma flor como se fosse a coisa mais valiosa do mundo (e na verdade não será?) e receber uma flor como se de um diamante se tratasse.
Ser criança é esboçar um sorriso quando se olha as estrelas, quando se vê o pôr-do-sol, quando se vê um pequeno gesto de amizade e ajuda.
Ser criança é, como nos diz o Principezinho, olhar para um desenho “aparente” de um chapéu e ver uma cobra que engoliu um elefante.
Ou seja, ser criança é olhar com um sorriso e sorrir perante as pequenas e importantes coisas da Vida.