sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Já não me recordo bem dos dois nomes. Talvez Miguel e Sofia. Talvez, não tenho a certeza...

Será que o cadeado que contém estes dois nomes ainda se encontra nas margens do Mondego?
Hum, com enorme probabilidade, sim.
Mas será que o sentimento que ele representa se perpetua? Ou melhor, será que este cadeado foi fechado representando algo duradouro ou simplesmente uma fogosidade de passagem? Será que Miguel e Sofia ainda dão passeios pelo parque de mãos dadas (se alguma vez o fizeram)? Será que atiraram a chave para o rio ou cada ficou com uma cópia para o dia em que o amor acabasse (sim, porque tudo acaba; sim, estou a chamar amor a uma relação que desconheço) voltasse lá e o retirasse?

Porque será que me lembro unicamente destes dois nomes? Simplesmente por aleatoriedade.

De qualquer forma, estas coisas dos cadeados até são bonitas. Mas vendo tanta gente a fazer isso, parece que a profundidade e magia se desvanecem.
Não, não faz sentido.  Haverá sempre profundidade e magia se o sentimento for verdadeiro, seja lá o que isso quer dizer.

Mas estas coisas dos cadeados são bonitas. Será que um dia farei uma coisa dessas com alguém? O cadeado estabelece uma "ligação", em termos físicos, mais forte. Enquanto a aliança se pode tirar do dedo, ele estará sempre lá preso, a representar um amor eterno (risos).
Pelo menos até alguém voltar lá com a chave, retirá-lo e com toda a força arremessá-lo para as profundezas do rio, onde repousam também outras chaves. Ou alguém voltar lá com um serrote para aço (ou uma rebarbadora, quem sabe?), cortá-lo e com toda a força arremessá-lo para as profundezas do rio, onde repousam também outras chaves.

Mas estas coisas dos cadeados até são bonitas. Espero um dia, ter um grau de ilusão suficiente para fazer uma coisa destas. Espero que Miguel e Sofia continuem juntos, vivendo na ilusão, pagãos inocentes da decadência.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Lembrei-me subitamente do "Juntos ao Luar". Da forma como transmite o amor de uma pessoa matearializado em acções não egoístas. Sim, da forma dolorosa como se tomam decisões que, contribuindo para a felicidade da pessoa que amamos, a colocam mais longe de nós. Amar é deixar em liberdade. Mas quem consegue praticar isto totalmente em todas as suas palavras e gestos? E, acima de tudo, quem consegue deixar Lídia partir sem sentir uma sensação de vazio no coração?

Deixa Lídia partir, recebe em ti a dor de não a ter mais. Pois essa dor decorre de seres imperfeito. No fundo, nunca Lídia foi e será tua. Junta a essa dor o facto de saberes que dificilmente o teu coração pertencerá a outra pessoa.

domingo, 14 de abril de 2013

É aquela sensação que te faltará sempre algo. Por mais que viages, penses, sentirás sempre que o mundo te está a esconder algo. Nem o teu amor a Lídia será suficiente. Quer vocês caminhem pelo parque tranquilamente, quer troquem beijos e abraços, saberás que não podes evitar que ela esteja sozinha. E tu também estás.

Tens que te iludir. Tens que acreditar que o teu amor por Lídia basta, mesmo que ela nada sinta por ti. Tens que tentar ser o melhor em cada coisa, crendo inutilmente que isso serve para algo. Tens que te lembrar que, quando não vires saída do labirinto e o bafejar do Minotauro estiver próximo, ainda não perdeste. Ainda vais a tempo, talvez não sejas tão forte como pensas, mas que isso importa? Respira fundo e começa de novo. E se estiveres cansado da dor de Lídia no teu coração, do peso do mundo que está dentro de ti, tenta ser como os deuses: nada te pertence, vive a tua vida como se não fosse a tua.

Saboreia o espectáculo do mundo sabendo que fazes parte dele.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Somos meras crianças. Todos os nossos desejos, aspirações, sonhos, nada mais são que ilusórias (des)ilusões. E a forma cega como os queremos alcançar, é comparável à criança que faz tudo para ter um rebuçado. Tentemos alcançar os nossos objectivos, mas simplesmente pela triste consciência de que precisamos de estar entretidos. Formulemos todo o género de conjecturas e fantasias, alimentando inutilmente a esperança de que existe uma mínima possibilidade de as atingir. Por outro lado, abdiquemos de todos os prazeres imediatos, tenhamos a disciplina de Ricardo sentado ao lado de Lídia. Percebamos que no final, nada nos resta. Tudo foi vão, excepto aquela capacidade que adquiriste de, em qualquer momento da tua vida e especialmente no final, olhares o teu percurso como se não fosse teu; sentires aquela indiferença perante tudo o que te rodeia; experimentar a serenidade de saber que nada mais somos que meras crianças.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Por favor, concedam-me
O desejo de nada querer.
Não há liberdade tão suprema
Como quando tudo damos
E nada esperamos.

Como quando regamos um flor,
Cuidamos dela,
E nos coibimos de sentir
A suavidade das suas pétalas,
Ou até vislumbrar a sua beleza.

Mas nada, Lídia, nada,
Substitui ter-te nos meus braços.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Pensei que já não te voltarias a sentir assim. Ou pelo menos saber melhor lidar, afastar esse sentimento. Fraco.

Adoro chuva. Neste momento, caminhar sem guarda-chuva, de manga curta, é o melhor que me podia acontecer. Como tenho a vontade de começar a correr. Ou simplesmente parar e ficar a absorver as gotículas assim como o cérebro absorve as palavras de um livro que está a apreciar. Como adoro esta chuva. Como amo esta melancolia. Faz-me sorrir. É o estado natural de todas as coisas: a melancolia, a tristeza, a doce noção de que nada vale a pena e tudo é inútil. Será que estas pessoas que vão nos automóveis já  perceberam isso? Quer o tenham feito ou não, para elas também é indiferente. Dormem. Eu também quero dormir. Adoro esta chuva. Nos prédios, as luzes dos apartamentos começam a acender-se. Imagino o que aquelas pessoas fazem neste preciso momento. Será que alguma delas olha para o relógio e se apercebe a passagem inexorável e eterna do segundos? Infelizmente estou quase a chegar ao carro. De qualquer forma, também não convinha continuar muito tempo pois não seria agradável o espectáculo de chegar a casa totalmente molhado. Abro a porta. Silêncio. Ligo o rádio, nenhuma música me agrada. Desligo. Deixo-me estar a saborear o Silêncio, deixo a mente divagar. Imagens aparecem e desaparecem, farrapos de pensamentos vão e vêm. As palavras vão flutuando na cabeça, como os destroços de um navio boiam no mar após um naufrágio. As gotas vão batendo no pára-brisas. Sigo o percurso delas através do vidro. Adoro chuva.

Já chega. Volta para a realidade.

Digo para mim:
Estás só. Ninguém o sabe.
Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada esperes que em ti ja não exista, 
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada.

Liga a ignição do carro.  Dorme.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Se algum dia te tivessem perguntado, Sophia,
Que pessoa era aquela a quem davas a mão,
(Com pouca firmeza e segurança, acrescentemos)
Devias ter-lhes declarado que era ninguém.

Porque alguém que disfruta docemente do Silêncio,
Adora veementemente a Solidão,
Repudia tranquilamente a Felicidade,
Nada mais é que ninguém.

E se algum dia eu te tivesse perguntado, Sophia,
Porque não percebes a profundidade do meu olhar,
Porque não sentes em pleno os meus pequenos gestos,
Devias ter-me explicado que era ninguém.

domingo, 13 de maio de 2012

*estrelas cadentes

- Dás-me a mão? (ele deu) Às vezes é bom ser inconsciente. Não temos noção do que vai acabar ou continuar e não dói tanto.

- Gosto de olhar para as nuvens. É como diz o poeta: “sente-se o frio de haver luar”.
- Como fazíamos no 10.º ano? (foi há tanto tempo)
(ele abraçou-a e ela chorou. Foram assim todo o caminho)

- No livro que comprei havia uma parte em que a mulher chorava e o homem disse que se a lágrima fosse de alegria se transformaria num diamante, mas se fosse de tristeza ia desfazer-se em cinzas. Ele agarrou a lágrima e transformou-se num diamante. Não sei se as minhas lágrimas seriam diamantes ou cinzas.
- Se calhar não seriam nem uma coisa nem outra. Talvez sejam estrelas cadentes.
- (talvez.)
- Adeus, Susana.

- O abraço desfez-se e a lágrima caiu.
Estrela cadente.

(...)
(ele procurou a mão dela e deram-nas)
-Estrela cadente….
-Nem sei bem porque é que disse isso….
-Sei eu…
(juntaram as outras duas mãos)

-Era bom ficar assim mais um bocado…
-Pode ser que pare mais à frente….
(no princípio ainda se esqueceu mas depois parou, as mãos desenlaçaram-se)
-Até…sexta.
-Adeus.
- Até sempre,
Estrela cadente.
(by: G.&S.)
Abriu as mãos, e nelas reluziam as ricas espirais de pérolas.
-Flynn, não me peças que as aceite.
-Peço-o. Dou-te este presente, Kayleen. São réplicas, e não pertencem a mais ninguém senão a mim. Até te pertencerem a ti.
Estrangulou-se-lhe a voz quando ele as colocou à volta do pescoço.
-Fizeste-as para mim?
-Talvez tenha ficado algo preguiçoso com os anos. Levei um pouco mais de tempo a conjurá-las do que deveria, mas fez-me recordar o prazer de criar.
-São mais bonitas que as outras. E muito mais preciosas.
-E eis uma lágrima - murmurou ele, e apanhando-a com a ponta do dedo enquanto se lhe deslizava pela face - Se cai de felicidade, vai brilhar. Se for de pesar, vai transformar-se em cinzas. Observa.
A gota tremeluziu no dedo dele, cintilou, e depois solidificou-se num diamante em forma de lágrima.
-E é este o teu presente para mim - retirou o pingente de debaixo da camisola, e passou a mão por ele. A gota de diamante brilhava agora debaixo da pedra-de-lua. Vou usá-lo junto ao coração. Sempre.

 Nora Roberts, "Em Sonhos".

Sempre...

sábado, 5 de maio de 2012

Amarelo. Tudo amarelo. Parece dia.

Procuro o melhor ângulo para observar o círculo amarelo reluzente pendurado na tela escura, e com uma pequenas pintas brilhantes à volta. Uma pincelada branca está traçada e parece que quem pegou no pincel o levantou de propósito para poder vislumbrar a Lua, no seu esplendor.

Sou só eu, esta atmosfera magnífica, e uma música que me diz: É verdade, olha como elas brilham para ti...

sexta-feira, 27 de abril de 2012

"Conversávamos sobre saudade. E de repente me apercebi de que não tenho saudade de nada. Isso independente de qualquer recordação de felicidade ou de tristeza, de tempo mais feliz, menos feliz. Saudade de nada. Nem da infância querida, nem sequer das borboletas azuis, Casimiro. Nem mesmo de quem morreu. De quem morreu sinto é falta, o prejuízo da perda, a ausência. A vontade da presença, mas não no passado, e sim presença atual.
Saudade será isso? Queria tê-los aqui, agora. Voltar atrás? Acho que não, nem com eles.
A vida é uma coisa que tem de passar, uma obrigação de que é preciso dar conta. Uma dívida que se vai pagando todos os meses, todos os dias. Parece loucura lamentar o tempo em que se devia muito mais.
Queria ter palavras boas, eficientes, para explicar como é isso de não ter saudades; fazer sentir que estou exprimindo um sentimento real, a humilde, a nua verdade. Você insinua a suspeita de que talvez seja isso uma atitude.
Meu Deus, acha-me capaz de atitudes, pensa que eu me rebaixaria a isso? Pois então eu lhe digo que essa capacidade de morrer de saudades, creio que ela só afeta a quem não cresceu direito; feito uma cobra que se sentisse melhor na pele antiga, não se acomodasse nunca à pele nova. Mas nós, como é que vamos ter saudades de um trapo velho que não nos cabe mais?
Fala que saudade é sensação de perda. Pois é. E eu lhe digo que, pessoalmente, não sinto que perdi nada. Gastei, gastei tempo, emoções, corpo e alma. E gastar não é perder, é usar até consumir.
E não pense que estou a lhe sugerir tragédias. Tirando a média, não tive quinhão por demais pior que o dos outros. Houve muito pedaço duro, mas a vida é assim mesmo, a uns traz os seus golpes mais cedo e a outros mais tarde; no fim, iguala a todos.
Infância sem lágrimas, amada, protegida. Mocidade - mas a mocidade já é de si uma etapa infeliz. Coração inquieto que não sabe o que quer, ou quer demais.
Qual será, nesta vida, o jovem satisfeito? Um jovem pode nos fazer confidências de exaltação, de embriaguez; de felicidade, nunca. Mocidade é a quadra dramática por excelência, o período dos conflitos, dos ajustamentos penosos, dos desajustamentos trágicos. A idade dos suicídios, dos desenganos e, por isso mesmo, dos grandes heroísmos. É o tempo em que a gente quer ser dono do mundo - e ao mesmo tempo sente que sobra nesse mesmo mundo. A idade em que se descobre a solidão irremediável de todos os viventes. Em que se pesam os valores do mundo por uma balança emocional, com medidas baralhadas; um quilo às vezes vale menos do que um grama; e por essas medida, pode-se descobrir a diferença metafísica que há entre uma arroba de chumbo e uma arroba de plumas.
Não sei mesmo como, entre as inúmeras mentiras do mundo, se consegue manter essa mentira maior de todas: a suposta felicidade dos moços. Por mim, sempre tive pena deles, da sua angústia e do seu desamparo. Enquanto esta idade a que chegamos, você e eu, é o tempo da estabilidade e das batalhas ganhas. Já pouco se exige, já pouco se espera. E mesmo quando se exige muito, só se espera o possível. Se as surpresas são poucas, poucos também os desenganos.
A gente vai se aferrando a hábitos, a pessoas e objetos. Ai, um dos piores tormentos dos jovens é justamente o desapego das coisas, essa instabilidade do querer, a sede do que é novo, o tédio do possuído.
E depois há o capítulo da morte, sempre presente em todas as idades. Com a diferença de que a morte é a amante dos moços e a companheira dos velhos.
Para os jovens ela é abismo e paixão. Para nós, foi se tornando pouco a pouco uma velha amiga, a se anunciar devagarinho: o cabelo branco, a preguiça, a ruga no rosto, a vista fraca, os achaques. Velha amiga que vem de viagem e de cada porto nos manda um postal, para indicar que já embarcou."


Rachel de Queiroz
(Crónica publicada no jornal "O Estado de São Paulo"  -  13/01/2001)

sexta-feira, 16 de março de 2012

É bom acreditar em nada. Sentir-se despejado de uma série de obrigações e imperativos que impomos a nós mesmos. Olhar para os outros e ver a forma como criam as suas ilusões, como colocam as suas expectativas de uma possível alegria em objectos e pessoas que não merecem, nem essa responsabilidade, nem essa atenção. E depois arrepender-se de sequer ter olhado para essas pessoas que dormem, que andam de um lado para o outro sem saber bem porquê e para quê, pois ao olhá-las estamos em parte a agir como elas, a procurar a solução em algo exterior a nós mesmos.

Quando nos libertarmos das prisões que nos são impostas e, mais que tudo, das que criamos para nós de forma voluntária, quando olharmos o pôr-do-sol e dermos a mão aquela solidão que lá ao fundo nos sorri, quando nada esperarmos que em nós já não exista, pode ser que nesse momento se alcance essa insustentável leveza do ser. Mas no limite sentirei sempre o peso de não sentir peso.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

 A sua filha ia hoje lindíssima, vestida de princesa, disfarce do qual a maioria das meninas gosta de usar no Carnaval. De repente a mãe começou a pensar no futuro, no ano em que ela deixaria de querer vir vestida assim e depois no ano em que deixasse de acreditar na inocência da vida e na magia das coisas. As suas cogitações foram interrompidas pela interpelação da filha:
-Mãe, é verdade que os quase todos os adultos não se mascaram porque deixaram de achar piada ao Carnaval?
-Hum, parece-me que também é por causa disso, mas acima de tudo penso que os adultos passam o ano todo a fingir que são outras pessoas, por isso já não sentem que é preciso mascararem-se nesta altura...
-Não entendi, mãe...
-Pensa assim: no fundo os adultos são como actores, a partir de uma dada altura da vida passam a representar um papel, a agir de acordo com o que acham que as outras pessoas querem de si.
-Tu também és assim mãe?
-Às vezes também sou, mas tento sempre não ser.
-Pois olha, eu digo-te já, quando for grande não vou ser como esses adultos esquisitos!
A mãe olhou para a filha, e entristeceram-se os seus olhos:
-Um dia vais perceber, filha, que por mais que lutes para te desprender das correntes, elas manter-te-ão sempre agarrada ao lado de dentro da caverna.
Nada mais a filha disse. E a mãe não saberia que apesar de neste momento não as ter percebido, a filha nunca mais se esqueceria destas palavras.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Cada vez mais percebo menos o sentido das coisas.

domingo, 27 de novembro de 2011

Hoje deixo por uns tempos de escrever

Volto a escrever no mesmo computador onde comecei. Curiosamente hoje o meu portátil está com algum problema. Não sei se isso será algum sinal, pois é engraçado eu voltar a escrever no computador fixo onde comecei este blog.

Vou deixar por uns tempos de escrever. Preciso de pensar até que ponto devo colocar aqui aquilo que penso ser, bem como alguns momentos que tocam no mais fundo de mim. Agradeço às pessoas que casualmente leram aqui algum texto, e espero que as tenha ajudado a esclarecer as suas dúvidas. Agradeço às três pessoas que deixaram aqui comentários, em especial a uma que desde o princípio me seguiu, e que deixou aqui mensagens que me incentivaram bastante a continuar, obrigado, especialmente a ti, A.

Gostaria de deixar uma frase que me tenha marcado, e veio-me logo esta à cabeça, aquela que Jesus disse a Tomé: "Tomé, tu acreditaste porque viste; feliz de quem acredita sem ver". Penso de não preciso de acrescentar mais nada, só se acredita verdadeiramente quando parece que não há razões para isso.

Acreditemos.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

-Consegues ver-me?
-Hoje trazes uma roupa bonita, o cabelo...
-Não, eu perguntei se conseguias ver-me, estás só a dizer aquilo que observas.
(Deram as mãos)
-Não percebo o que queres dizer...
(Por momentos ficaram a olhar um para o outro, em silêncio. Mesmo sem falar, sentiu que naquele momento a ilha que cada um de nós é desaparece, que aqueles olhos conseguiam ver algo fundo de si, e a solidão abandonou o seu coração)
-Está tudo bem?
-Sim. Tu vês-me.
(Colocou-lhe o braço no ombro, e ficaram ali, dois corpos, uma só pessoa)

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O barulho da lâmpada fluorescente acesa era irritante, parecia que brocas trabalhavam perto dos meus ouvidos. O chão estava frio, ligeiramente húmido, com odor a amónia, certamente teria sido lavado recentemente. Ao longe, escutava vozes sobrepostas, que ora se desvaneciam, ora aumentavam ligeiramente a intensidade. As pequenas janelas permitiam que a luminosidade fosse razoável, e retiravam qualquer sentido à existência da lâmpada acesa. A claridade não era muito grande, por isso o dia deveria estar nublado, ou talvez o nevoeiro ainda não se tivesse dissipado.
Passei duas ou três vezes água fria pela cara, e olhei para o espelho. Fiquei a olhar para o meu reflexo como se de um estranho se tratasse, como se estivesse a observar pela primeira vez os contornos daquela face. Percebo que entre mim e aquele do outro lado há uma grande diferença, como se o facto de me olhar ao espelho fosse uma prova de que sou mais que uma sombra, ou digamos, um aglomerado temporário de células, uma imagem efémera, haverá o que quiserem que lhe chamemos: alma, espírito, luz. Se o criador do espelho envenenou a alma humana, talvez numa fase anterior tenha permitido que sintamos que ela exista.
Lavo outra vez a cara como se a água me purificasse, e colocasse a imagem do outro lado como um resíduo cada vez menor, resíduo esse que é ao mesmo tempo a nossa prisão e nossa liberdade, ou retirando a metáfora e perífrase (ou qualquer outro recurso que esteja para aí), chamamos corpo.
Abri a porta e segui durante algum tempo pelo corredor, ouvindo os ecos dos meus passos a ressoarem nas paredes. Ao fundo estavam várias portas, mas não sabia quantas, pois ainda me encontrava a alguma distância. Fiquei indeciso: não sabia se devia seguir ou voltar para trás. Não me lembrava bem de onde tinha vindo, mas (a minha alma) sentia que vinha de um sítio onde me sentia bem, vinha de casa.
Repentinamente, alguém me colocou a mão no ombro. Virei-me rapidamente e a pessoa retirou a mão, percebendo que me tinha assustado. Era alguém que não conseguia perceber bem se era homem ou mulher, o rosto não me parecia nítido, talvez por estar vestido de branco, tal como as paredes estavam pintadas da mesma cor, e talvez porque ainda não me sentia bem acordado, ou melhor, porque me sentia a meio caminho entre o sono e o despertar.
"Precisa de alguma coisa, amigo?", perguntou. No entanto calou-se logo a seguir, e ficou com uma expressão ilegível, como se entendesse que estava surpreendido por encontrar alguém e por esse alguém me colocar logo uma questão e me tratar por "amigo" (quem é, ou melhor, o que é um amigo?). No entanto qualquer coisa nele (ou nela) me parecia realmente amigável (para manter adjectivos do mesmo campo lexical), e decidi responder, "Bem, por acaso não sei muito bem para onde ir...". "Nisso não o posso ajudar, embora entenda que a principal questão para a qual queira resposta".
Por momentos abstraí-me da sua presença, olhei em meu redor, não sei se seria impressão minha mas parece que tinham aparecido mais portas, o que ainda me deixava mais angustiado. Sentia-me vazio, como se nada naquele momento fizesse alguma vez sentido. Vendo-me assim, a pessoa à minha frente retirou a expressão enigmática e afirmou: "É engraçado que tu ultrapassas com relativa facilidade os momentos aparentemente mais difíceis, e nas alturas em que não é exigido quase nada de ti, crias uma data de problemas sem sentido. Nunca te esqueças que os espaços em branco num texto são tão importantes como as letras que vais escrevendo." Dito, isto calou-se, e era perceptível que estava à espera da minha reacção.
Não sabia se deveria responder algo. Tinha-me tratado por tu, como se me conhecesse há bastante tempo, e, apesar de eu não perceber muito bem o que queria dizer, tinha uma profunda sensação que aquelas palavras tinham sentido, que diziam algo sobre mim que eu não queria admitir.
Como resposta lancei-lhe um peremptório "Quem és tu?", ao passo que replicou, com um leve sorriso, "Não tentes lançar as tuas dúvidas para o meu lado. Só te vou responder com aquilo que leste uma vez: Nem tu me podes fazer todas as perguntas, nem eu te posso dar todas as respostas". E voltou ao seu semblante ilegível.
Deixei-me ficar em silêncio. Parecia que aquela me pessoa me estava a dar tranquilidade. Voltei a olhar à volta. Parecia que no fundo o número de portas aumentava cada vez mais. E qual é o meu espanto quando reparo que, nos breves instantes em que me distraí, a pessoa que tão inesperadamente tinha aparecido, tinha desaparecido. Subitamente, aquela sensação de vazio re-surgiu, acompanhada de uma espécie de angústia. Apetecia-me deitar no chão e dormir, sim, dormir e não voltar a acordar...
Mas não podia parar, tinha algo dentro de mim que me obrigava a continuar a andar, mesmo sem saber para onde ir. Comecei a dar os primeiros passos, como se estivesse a aprender a andar pela primeira vez, tentando com todo o esforço manter o equilíbrio, tal qual um ébrio. O chão parecia que me fugia, ora parecia firme, ora gelo, ora que estava prestes a cair para um precipício, mas tinha que continuar.
Levantei a cabeça, precisava de olhar mais longe, precisava de ver mais além, queria talvez encontrar um sentido para isto tudo. Não podia desistir, só dizia para mim mesmo, "Nunca te esqueças de quem és, nunca!", mesmo sem saber quem realmente sou. Podia não ter todas as respostas, podia não fazer todas as perguntas, mas podia ter todas as dúvidas. Mas não será isso que faz tudo valer a pena?

sábado, 8 de outubro de 2011

As Nossas Estrelas

É aqui que os sonhos começam. Foi aqui que muitos homens, olhando a abóbada celestial, obtiam resposta para as suas dúvidas, consolo para as suas mágoas. Preciso de voltar a olhar as estrelas todos os dias. Preciso de voltar ao tempo em que vinha cá fora e ficava em Silêncio com o mundo, sentindo uma espécie de espanto, de maravilha perante o milagre na vida. Mas não basta querer: há alturas em que, por mais que queiramos, por mais que desejemos com todas as forças, aquilo que se sentia não regressa, perde-se na memória, lança-se no esquecimento.

Também é aqui que os sonhos acabam. Mas não acabam porque desaparecem, acabam porque se misturam com a realidade, porque tudo de repente parece ser possível. É aqui que se vê quem acredita, quem olha as estrelas cadentes como um rasto luminoso mágico efémero, ou quem vislumbra somente o resultado do atrito da atmosfera perante fragmentos vindo do espaço.

Quero ficar assim para sempre, como uma criança no baloiço, ouvindo o leve ranger das correntes enferrujadas e gastas, sentindo a doce oscilação, resultado da brisa e do baloiçar das pernas. Dêem-me esperança. Dêem-me força. Dêem-me de volta quem sou. Talvez fosse isto que pedisse enquanto observava o rasto luminoso quase instantâneo. A lua, que vai engordando, assiste tranquila a este espectáculo.


Para o fim fica a melhor estrela: a mais luminosa, um rasto largo, seguro, um percurso não muito longo, mas marcante, se é que podemos utilizar este adjectivo para uma existência mínima. Neste momento não penso em nada, já não quero nada, procuro apreciar o momento, guardá-lo. Sorrio perante a fantasia que flutua no ar, neste momento em que cada lágrima é uma estrela cadente.

sábado, 3 de setembro de 2011

Por favor, hoje não sonhemos.
Não queiramos voar,
Nem sequer tentemos.
Deixemo-nos estar.

Diz-me só que dor é essa,
Que maldição te acompanha,
Quem quebrou a promessa,
Quem disse que ao Tempo ganha.

Vai, eu fico sozinho.
Não mereço nada.
Vou parar no meio do caminho.



sexta-feira, 19 de agosto de 2011

VII

Feliz o homem que perdeu a esperança,
Mesmo nunca tendo existindo algum.
Lídia, vejamos como o rio flui,
Não queiramos mudar-lhe o rumo.

Não esperes nada do novo dia.
Coloca-te sempre no fundo da escada.
Assim um raio de sol por entre as nuvens
Será a tua única felicidade.

Lídia, esqueçamos o futuro,
Não desejemos o passado.
Vivamos só o presente,
Sejamos puros e inocentes.

Vivamos cada segundo atrás de segundo,
Numa linha fina e invisível
Tecida pelas mãos atrozes do Tempo.
Algures entre a realidade e o sonho.